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Ludopatia digital, sobrecarga e assédio transformam os riscos do trabalho

  01/10/2026 - As transformações tecnológicas mudaram a forma de trabalhar e também os riscos aos quais os trabalhadores estão expostos. Pressão constante, sobrecarga, assédio, conflitos entre vida profissional e pessoal, transtornos mentais e a popularização das apostas on-line passaram a exigir uma nova compreensão sobre o que significa garantir um trabalho seguro. Esses foram alguns dos desafios discutidos no seminário “Transformações do Trabalho Seguro na Sociedade Tecnológica e seus Reflexos na Justiça do Trabalho”, realizado na quarta-feira (30), na sede do Tribunal Superior do Trabalho (TST), em Brasília.  Ao longo do evento, especialistas defenderam que a prevenção do adoecimento mental precisa ir além do cumprimento das normas e considerar os fatores psicossociais presentes na organização do trabalho e nas novas tecnologias. Apostas e ludopatia O crescimento dos jogos de azar e a ludopatia estiveram entre os temas que mais chamaram atenção da plateia. Com as apostas disponíveis a qualquer hora pelo celular, o jogo deixou de estar restrito ao lazer e passou a afetar também a vida familiar, financeira e profissional de vários trabalhadores brasileiros. Referência brasileira em jogo patológico e fundador do Ambulatório de Jogo Patológico do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP), o psiquiatra Hermano Tavares explicou que o transtorno do jogo é uma condição médica caracterizada pela perda de controle, pela insistência em recuperar perdas por meio de novas apostas e pelo uso do jogo como forma de aliviar emoções negativas. Segundo o especialista, cerca de 20% dos brasileiros apostam regularmente e aproximadamente 4% da população já apresenta comportamento problemático relacionado às apostas. Entre os apostadores on-line, um em cada cinco desenvolve transtorno do jogo, proporção semelhante à observada entre usuários de cocaína, por exemplo.  Neste cenário, migrar das apostas presenciais para as plataformas digitais quadruplica o risco de desenvolver dependência. Hermano Tavares explicou ainda que o ambiente digital foi concebido para estimular a permanência. "O jogo de azar é uma peça de engenharia psicológica.”  A rapidez entre a aposta e o resultado, bônus promocionais, recompensas aleatórias e mecanismos que criam a sensação de controle favorecem o comportamento compulsivo. Segundo o psiquiatra, a facilidade de acesso também faz com que as apostas invadam a rotina profissional. "O comprometimento profissional é severo, pois o jogador compulsivo adoece a ponto de gastar todo o seu dinheiro e não conseguir nem mais trabalhar". Hermano Tavares destacou também que o transtorno ultrapassa o inpíduo e alcança toda a família. Além dos prejuízos financeiros, familiares sofrem com estresse, piora da saúde mental e dificuldades para manter suas próprias atividades profissionais. Pressões invisíveis Se as apostas representam um novo fator de risco, o próprio ambiente de trabalho também pode favorecer o adoecimento mental. O juiz do Trabalho Cláudio Freitas, do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ), enfatizou que pressão constante por resultados, jornadas excessivas, assédio, bullying, conflitos entre trabalho e família fazem parte dos riscos psicossociais. O magistrado explicou que o adoecimento mental relacionado ao trabalho pode se manifestar de diferentes formas, como depressão, estresse pós-traumático, fadiga física e mental, alterações no ciclo do sono e transtornos cognitivos. Em 2025, aproximadamente 545 mil afastamentos relacionados ao trabalho tiveram como principais causas depressão e ansiedade. As mulheres foram as que mais se afastaram, com idade média de 41 anos. “A prevenção não se limita à identificação de acidentes ou lesões físicas, mas envolve também as relações profissionais, a pressão por resultados e a possibilidade de desconexão. As condições em que o trabalho é realizado podem contribuir para o adoecimento e revelar falhas na organização das atividades. Nós estamos normalizando os absurdos”, afirmou o magistrado.  Cultura do respeito Ao abordar o assédio nas organizações, a psicóloga Lis Soboll, doutora em Medicina pela USP e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), defendeu que o problema não pode ser compreendido apenas como uma relação entre agressor e vítima, mas como reflexo da cultura organizacional. “O assédio é um modo de viver e trabalhar que permite essa atitude. Não se trata apenas de um comportamento inpidual, mas de um contexto coletivo que vai nos empurrando para o assédio e para outros adoecimentos mentais”, detalha.  Para a especialista, enfrentar o problema exige substituir a cultura da sobrecarga, da solidão e da competição por relações baseadas em diálogo, reconhecimento, cooperação, confiança e valorização da inteligência coletiva.  “As normativas não vão salvar nossa saúde mental e nossas relações. O meio mais poderoso de prevenção das patologias mentais no trabalho não depende dos médicos ou psicólogos. Depende do respeito e da consideração para com os outros, da ajuda mútua, do saber viver, do viver juntos e da solidariedade”, conclui Lis Soboll.  “O futuro do trabalho não será seguro simplesmente porque teremos tecnologias mais sofisticadas. Será seguro se formos capazes de construir instituições igualmente sofisticadas para governar os riscos que essas tecnologias criam”, complementou a professora doutora Ana Virginia Gomes.  (Sofia Martinello/JS - Fotos: Bárbara Cabral) Leia mais: Seminário discute acidentes e doenças ocupacionais no âmbito das novas tecnologias  
01/10/2026 (00:00)
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