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De norte a sul do Brasil, quem são as pessoas que fazem a Justiça do Trabalho chegar a quem precisa?

  28/10/2026 - Uma audiência precisa ser preparada, uma pessoa que chega ao balcão pode precisar de orientação, uma comunidade pode enfrentar barreiras para acessar serviços públicos e uma decisão judicial pode exigir persistência para ser cumprida. Por trás dessas situações, há servidoras e servidores que articulam procedimentos, acolhem o público, desenvolvem iniciativas e encontram caminhos para que a Justiça do Trabalho cumpra o seu papel. As trajetórias de cinco profissionais de diferentes regiões do país mostram a persidade desse trabalho. Na Bahia, no Espírito Santo, na Paraíba, em Pernambuco e em Santa Catarina, as experiências passam pelo funcionamento das unidades judiciárias, pelo atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade, pela inclusão social e pela busca de efetividade das decisões judiciais. Uma teia que mantém o trabalho em movimento Antes de ingressar na Justiça do Trabalho, Ana Carolina Miranda, conhecida como Carol, era professora de balé e lecionava filosofia em uma faculdade. A experiência de ter sido dispensada sem receber oito meses de salários atrasados foi decisiva para que se aproximasse dos direitos trabalhistas e decidisse prestar concurso para o Tribunal. Desde 2016, ela atua como secretária de audiência na 24ª Vara do Trabalho de Salvador, vinculada ao Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (BA). Nascida com surdez unilateral, ingressou pelas vagas destinadas a pessoas com deficiência e encontrou colegas dispostos a colaborar com as adaptações necessárias ao trabalho. Hoje, está perto de concluir a graduação em Direito. Na rotina da Vara, Carol vê a atuação dos servidores como uma rede de colaboração que conecta tarefas e áreas diferentes. “Nós, servidores e juízes, trabalhamos de forma orgânica. Os servidores atuam como uma teia, colaborando uns com os outros, desde o atendimento no balcão até a realização de pagamentos, restrições bancárias, inclusão de audiências em pauta e digitalização de atas”, afirma. A imagem da teia ajuda a compreender uma característica do serviço público: atividades que podem parecer isoladas fazem parte de um mesmo fluxo. Preparar uma audiência, organizar documentos, atender quem procura a unidade e dar andamento a procedimentos são tarefas distintas, mas interdependentes. O atendimento que também acolhe Em Vitória (ES), a trajetória de Maria Eugênia Rezende Vieira se confunde com a própria história de aproximação com a Justiça do Trabalho. Nascida na zona rural, ela trabalhou ainda na infância em uma pensão e sofreu queimaduras graves. Ao passar diante do prédio onde funcionavam as unidades da Justiça do Trabalho, dizia que um dia trabalharia ali. Formada em Pedagogia e Direito, tomou posse em 1997. Durante 13 anos, atuou na atermação, serviço que permite a trabalhadores e trabalhadoras apresentarem suas reclamações à Justiça do Trabalho sem a necessidade de advogado.  Hoje, trabalha no atendimento ao público da 15ª Vara do Trabalho de Vitória, no TRT da 17ª Região, e participa do Subcomitê Pop Rua Jud, voltado à promoção do acesso à Justiça para pessoas em situação de rua. A atuação se conecta também ao trabalho que realiza como missionária social. Para Maria Eugênia, o contato com esse público tem uma dimensão pessoal que ultrapassa as atribuições profissionais. “Esse público é a minha história”, resume. A experiência mostra como o atendimento exige mais do que encaminhar demandas: envolve escuta, compreensão das necessidades de quem procura o serviço e atenção às barreiras que podem dificultar o acesso a direitos.    Iniciativas que aproximam a instituição da sociedade Na Paraíba, a antropóloga Jamilly Cunha encontrou na Justiça do Trabalho espaço para desenvolver iniciativas voltadas a grupos que enfrentam obstáculos de acesso a direitos e serviços.  Como assessora-chefe da Assessoria de Promoção do Trabalho Decente e dos Direitos Humanos (Asprodec) do TRT da 13ª Região (PB), ela atua em projetos que incluem o Aquilomba, Paraíba, voltado à inclusão digital de comunidades quilombolas, além de iniciativas relacionadas à população trans e ao combate ao trabalho em condições análogas à escravidão e ao trabalho infantil. Para a servidora, a experiência contrariou a ideia de que instituições públicas são necessariamente distantes das pessoas. “Existe um estigma de que as instituições públicas tendem a ser engessadas ou distantes da sociedade, mas, ao chegar aqui, vi que o Tribunal é exatamente o oposto: um espaço que pulsa, inova e busca ativamente a proximidade com as pessoas”, defende. O trabalho revela outra dimensão da atuação institucional: além de processar e julgar ações, a Justiça do Trabalho também desenvolve iniciativas para promover direitos, prevenir violações e aproximar seus serviços de públicos persos. Criar oportunidades para quem mais precisa Há 39 anos no TRT da 6ª Região (PE), a técnica judiciária da área administrativa Andréa Leite encontrou um novo sentido para a própria trajetória profissional ao participar, em 2018, da implementação do Programa de Aprendizagem. A iniciativa ampliou as oportunidades para além do público habitualmente atendido, incluindo adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas, pessoas com síndrome de Down e jovens que deixam instituições de acolhimento. A experiência reforçou para Andréa o valor de um trabalho cujos resultados podem repercutir diretamente na vida de outras pessoas. “A gente mudar a vida de alguém é muito importante. É o que mais me faz realizada em toda a minha trajetória”, conta. A atuação mostra como políticas de inclusão e de acesso ao trabalho também dependem de profissionais que organizam, articulam e acompanham sua implementação. Nesse processo, o serviço público pode contribuir para abrir caminhos a quem enfrenta mais barreiras para ingressar no mundo do trabalho. A persistência para fazer a decisão valer Na 2ª Vara do Trabalho de Florianópolis, no TRT da 12ª Região (SC), o trabalho de João Batista Schneider, técnico judiciário com 35 anos de carreira, inclui um desafio recorrente da fase de execução: encontrar meios de efetivar uma decisão judicial. Em um processo, o devedor tentava evitar a cobrança mantendo um BMW MINI em nome da esposa. Certo dia, nas proximidades do Tribunal, João reconheceu o homem ao vê-lo deixar a filha na escola. A observação da rotina levou o servidor a sugerir a expedição de um mandado de busca em hora certa. O veículo foi localizado e apreendido, e o caso terminou em acordo. A situação exigiu atenção aos detalhes e conhecimento dos procedimentos, mas também mostrou como a experiência acumulada pode ajudar a encontrar alternativas para dar andamento a um processo. “Mesmo não sendo às vezes 100% do almejado, na maioria dos casos, esperamos que o encerramento possa significar para os envolvidos o fechamento de um ciclo nas suas relações”, compartilha João. O relato evidencia que o cumprimento de uma decisão não depende apenas de sua definição. A execução envolve procedimentos próprios e, em determinados casos, exige persistência para que o resultado do processo produza efeitos concretos.   A dimensão de uma rede nacional As experiências desses cinco profissionais integram uma estrutura que alcança todo o país. Em 2025, a Justiça do Trabalho contava com 41.315 servidores em atividade e 3.645 magistrados, segundo dados do Centro de Pesquisas Judiciárias do TST e do CSJT. A estrutura reúne o Tribunal Superior do Trabalho (TST), 24 Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) e 1.573 Varas do Trabalho instaladas, responsáveis pela jurisdição sobre os 5.571 municípios brasileiros, onde vivem cerca de 213,4 milhões de pessoas. A atuação também se traduz em resultados. Em 2025, a Justiça do Trabalho recebeu 4,35 milhões de processos, enquanto as Varas do Trabalho repassaram R$ 50,56 bilhões em direitos aos autores de processos. Os valores foram pagos por diferentes meios: acordos homologados, execução de decisões e pagamentos espontâneos. Os números dimensionam a estrutura, o alcance e a importância da instituição. As histórias revelam o trabalho que sustenta essa atuação: a cooperação nos bastidores, o acolhimento de quem procura atendimento, a criação de oportunidades, a aproximação com comunidades e a persistência para fazer decisões valerem. No Dia da Servidora e do Servidor Público, celebrado em 28 de outubro, reconhecer essas trajetórias é reconhecer também que a Justiça do Trabalho não se resume a prédios, processos ou decisões. Ela se concretiza nas atividades cotidianas de profissionais que, com diferentes atribuições, transformam o seu conhecimento e suas mais persas habilidades humanas no serviço que chega à população. (Fernanda Duarte/JS - Fotos: TRTs)   
28/10/2026 (00:00)
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