Com apoio de hospitais de referência, ação coordenada pelo CNJ na Amazônia acelera diagnósticos médicos
Com o filho de apenas oito meses nos braços, Sara Melo, 29 anos, percorreu dois municípios em busca de atendimento para compreender o atraso no desenvolvimento da criança. Sem um diagnóstico definido até então, ela viu na equipe de saúde da Justiça Itinerante Cooperativa na Amazônia Legal a oportunidade de finalmente obter orientação especializada e encaminhamento adequado.
O diagnóstico de deficiência visual veio após uma série de atendimentos com especialistas da UBS Fluvial, que integra a ação e conta com profissionais do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC‑FMUSP), do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) e da Força Nacional do SUS.
Para Sara, a chegada da missão representou o fim de meses de incerteza. “Não tinha recursos para ir até Belém consultá-lo com especialistas. Hoje saio daqui com um laudo, pronta ‘pra’ pedir um benefício ‘pra’ ele e dar sequência ao atendimento que ele precisa. Estou muito feliz”, afirmou.
Sara Melo recebeu atendimento na UBS Fluvial. Foto: Letícia Autun/CNJ
Atendimentos
Nos três primeiros dias de ação em Portel, foram realizados 998 procedimentos entre consultas e exames. No dia 18, registraram-se 372 atendimentos, com destaque para Clínica Médica (112), Oftalmologia (81), Ginecologia (40) e Pediatria (74). No dia 19, o total chegou a 362, impulsionado pela alta demanda em Oftalmologia (120), Clínica Médica (81) e ultrassonografias (42). Já no dia 20, mesmo com menor fluxo, foram contabilizados 264 atendimentos, também com maior procura em Clínica Médica (71), Oftalmologia (72) e Ginecologia (22). Os números evidenciam o impacto imediato da ação, especialmente nas áreas de maior demanda.
As médicas Maria Beatriz Lacerda e Fernanda Castro Couto, oftalmologistas do Hospital Albert Einstein que atuam na UBS Fluvial, relataram que o primeiro dia superou as expectativas, com muitos casos complexos decorrentes da pré‑triagem e uma demanda reprimida importante, sobretudo, de catarata e outras condições cirúrgicas. Elas destacaram que, embora não seja possível realizar cirurgias no Itinerância, a missão permitiu agilizar encaminhamentos, orientar adequadamente cada paciente, melhorar a qualidade de vida com prescrição de óculos e atender um número significativo de crianças encaminhadas pela pediatria.
Para Juliana Lima de Araújo, coordenadora das equipes de saúde da Força Nacional do SUS em Portel, a ação tem permitido que muitas pessoas resolvam múltiplas necessidades em um único dia. “Algumas mulheres vinham apenas levar seus filhos ao pediatra, mas acabavam conseguindo consultas com ginecologista, clínico geral e até infectologista. A maior queixa da população era a dificuldade de acesso a um atendimento de qualidade”, relatou.
Casos como o de Silvana Braga Valente, 29 anos, ilustram essa realidade. Grávida e com dores, ela buscou atendimento temendo complicações gestacional. “Já perdi um filho antes e fiquei com muito medo. É muito difícil encontrarmos ginecologista no posto da cidade. Aqui nessa ação, até o ultrassom eu consegui fazer”, comemorou.
Oportunidade
Para muitos, a missão representa o primeiro contato com um especialista. Foi o caso de Raimundo Renato Afonso Alves, 42 anos, que pôde se consultar com um cardiologista pela primeira vez. “É apenas uma consulta de rotina, mas para mim é uma oportunidade”, disse.
O médico Fábio Racy, ortopedista e especialista em medicina de desastres do Hospital Albert Einstein, coordena a equipe de médicos da Justiça Itinerante na UBS Fluvial de especialidades médicas. Segundo ele, apesar do volume elevado, não houve urgências graves, e a equipe operou próxima da capacidade máxima, com expectativa de ampliar atendimentos nos dois últimos dias. “É natural que a população aproveite a presença da missão para consultar vários especialistas. Para nós, isso faz parte do compromisso de ampliar o acesso à saúde em regiões remotas”, afirmou.
A conselheira do CNJ Daiane de Nogueira Lima, supervisora do Fórum Nacional do Judiciário para a Saúde (Fonajus/CNJ), ressalta que o atendimento à população tem que ser prestado independentemente de ser em uma área urbana, rural ou ribeirinha e que o CNJ promove ações como o Justiça Itinerante para mostrar a importância de o Estado estar presente em todo o território nacional. “Aqui no Marajó, todo o transporte é feito de forma fluvial ou por meio e aéreo. É importante que o SUS se adeque a esses desafios da região. Daí a importância de soluções inovadoras, como a UBS Fluvial, em que a saúde se locomove através dos rios até as populações ribeirinhas, assim como o serviço de ambulancha, dando aquele atendimento emergencial. É a saúde se desafiando e resolvendo as questões da população de forma compatível com o modo de vida e de transporte, mas sem deixar o cuidado da atenção à saúde de lado”, destaca.
O Justiça Itinerante Cooperativa Amazônia Legal iniciou na segunda-feira (18) e se encerra nesta sexta (22), voltado às populações de Breves, Portel e Melgaço, no arquipélago do Marajó. Coordenado pelo CNJ, a ação leva atendimentos de direito, cidadania e saúde em parceria com 50 instituições. No eixo saúde, os parceiros são o Hospital de Clínicas do SUS, o Hospital Albert Einstein e a Força Nacional do SUS.
Leia também:
Ação no Marajó une regularização fundiária, proteção ambiental e acesso a direitos
Presidente do CNJ participa nesta sexta (22/5) de itinerância no Marajó
CNJ intensifica ações de proteção às mulheres durante Justiça Itinerante no Marajó
Com serviços integrados, Justiça Itinerante leva solução imediata a demandas trabalhistas e previdenciárias
Com alta procura, Justiça Itinerante começa atendimentos no Marajó (PA)
Justiça Itinerante: saiba mais sobre os serviços que serão ofertados pelo programa no Marajó
Justiça Itinerante: iniciativa do CNJ amplia acesso a serviços no Marajó em parceria com mais de 50 instituições
Crianças do Marajó recebem atendimento especializado e garantia de direitos no Justiça Itinerante
Confira as fotos do Justiça Itinerante Amazônia Legal no arquipélago do Marajó
Texto: Ana Araújo e Waleiska Fernandes
Edição: Waleiska Fernandes
Agência CNJ de Notícias
Número de visualizações: 16